Opinião

É urgente a reorganização da Saúde: doentes crónicos não-COVID têm de ser tratados!

por Vítor Neves

O cancro digestivo é composto patologias malignas do intestino, estômago, pâncreas, esófago, fígado, GIST e TNE. No seu conjunto são a segunda causa de morte por cancro em Portugal, a seguir ao cancro do pulmão. Em 2019 foram diagnosticados cerca de 17 000 casos novos e registadas mais 10 000 mortes. Infelizmente, isto significa que, em Portugal, morre uma pessoa por hora de cancro digestivo!

O cancro do cólon é o mais prevalente dos tumores digestivos. Em Portugal são diagnosticados 10092 casos por ano (OMS, 2018) e perdem-se 12 vidas por dia. As principais causas são a hereditariedade, obesidade, tabaco, excesso de bebidas alcoólicas e estilo de vida, nomeadamente alimentação rica em gorduras, sal e açúcar. Por exemplo, existem dados que mostram que a incidência de cancro colorretal está a aumentar nos adultos mais jovens e que isso se deve a maus estilos de vida que criam um terreno fértil para o desenvolvimento desta doença oncológica.

Com o surgimento da pandemia, os serviços de saúde foram reformulados e severamente condicionados. O imperativo foco no tratamento da COVID19 levou ao adiamento de consultas, cirurgias e exames complementares de diagnóstico. Inevitavelmente, ficaram doenças por diagnosticar e doentes por tratar. Esta paragem da resposta ao cancro tem já seis meses de duração, nos quais cerca de 6500 novos casos de cancro digestivo não foram identificados. Estes casos vão inevitavelmente surgir, mas num estadio mais avançado, logo, com menor taxa de sucesso e maiores custos sociais, humanos e orçamentais.

Em 2019 houve algum avanço na implementação da Pesquisa de Sangue Oculta nas Fezes (PSOF) como meio de rastreio à população.

Também devido à pandemia, este rastreio está parado desde março. É fundamental lembrar que o rastreio é o meio mais barato e eficaz para contornar esta doença, que quanto mais cedo é diagnosticada, maior é a taxa de sobrevivência.

Embora não saibamos quando é que a COVID19 vai desaparecer, não podemos adiar mais a saúde dos portugueses. Os doentes devem continuar os seus tratamentos e consultas, e o rastreio de base populacional deve ser retomado urgentemente. Para além disso, a Europacolon defende que o Ministério da Saúde deve criar um programa urgente de recuperação de consultas, cirurgias e exames complementares de diagnóstico. Para isso deve ser criado um grupo de trabalho multidisciplinar que inclua o Ministério da Saúde, Ministério da Solidariedade Social, Ordens Profissionais, Associações de Doentes e Indústria Farmacêutica, de forma a relançar de forma eficaz a resposta ao cancro.

Esta pandemia ensinou-nos que a Saúde é o maior bem da Humanidade por isso deve ser a prioridade política de qualquer Estado. É urgente reformular o Sistema Nacional de Saúde, investir em mais recursos humanos e apostar em políticas que salvam vidas.

Os tumores não vão desaparecer. Pelo contrário, se nada fizermos, vão aparecer mais tarde, de uma forma mais perniciosa e com maiores consequências humanas e sociais. 

Europacolon Portugal
Associação de Apoio ao Doente de Cancro Digestivo
Linha de Apoio: 808 200 199

PT-NON-00590 09/20